Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu suportamento lhe conveiu receber ajudas em pão e dinheiro d'alguns Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha, primeiro conde de Villa Real, e segundo capitão da dita cidade; porque era de real sangue e mui nobre coração; principalmente porque El-Rei D. Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos cá e lá mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se já envergonhada de requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua esperança, com as mudanças de seus irmãos de todo cerrados, houve-se de todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e suspirando já por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo, fallou com Mossem Gabriel de Lourenço, seu capellão mór, e com suas crenças, instrucção e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava já pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles morrer, não como Rainha, mas como sua irmã menor que se queria poer em suas mãos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe parecesse razão.
O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa tenção, acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito melhor mostrança, e andando já em apontamentos com esperança de bôa conclusão, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro de mil quatrocentos e quarenta e cinco.
Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que á sua alma e á sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpção que fôra de peçonha; porque em lhe lançando uma ajuda, que por ser um pouco achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a opinião dos mais foi que esta morte lhe ordenara, não o Infante D. Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmão, tornasse a ella, de que fôra já lançado. Porque foi avisado que ella o procurava e concertava já com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mór, e cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmãos, e por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que ordenara á Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. João, que após sua irmã não durou com vida mais de XV dias.
E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mór do mosteiro d'Aguadallupe.
O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a poz em companhia da Infante D. Catharina sua irmã, em poder de Violante Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha, tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.
CAPITULO LXXXV
Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar
Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Aragão ficou em Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o assi aconselhava, ordenou de os fazer lançar e desterrar fóra do reino, e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razões e causas com que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia vêr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e quatro mil de pé, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana, e Diogo Soarez d'Albergaria, e Fernão Coutinho, e João de Gouvêa, e outros muitos fidalgos e cavalleiros da côrte, em que ia a frol d'ella.
E porque o sr. D. Pedro não era cavalleiro, quiz o Infante seu padre que o fosse da mão do Infante D. Anrique seu tio, que era em Lagos, e foi para isso chamado a Coimbra, onde logo veiu e este ajuntamento se fez, e sobre qual dos Infantes devia fazer aquelle auto de Cavallaria, houve entre elles uma perciosa, mas mui honrada e maravilhosa contenda. Porque cada um parecia que minguava em seus merecimentos, por acrecentar nos do outro, e cada um se alegrava ser n'elles do outro vencido para que o fizesse, e em fim o cargo ficou ao Infante D. Anrique e não sem merecimento; porque em seu tempo muitos Principes foram de mais terras, gentes, e rendas, mas não houve em seus dias algum ante quem elle em perfeição de virtudes, e bondade d'armas, e esforço do coração se devesse contar por segundo, o qual com novas cerimonias e grandes festas, armou Cavalleiro o Condestabre seu sobrinho, no mosteiro de S. Jorge, que é junto com a cidade sobre o Mondego. D'onde logo partio com mais gentes de sua ordenança; porque alguma que falleceu, se refez toda com elle em Cidad Rodrigo, primeiro lugar de Castella por onde entrou. E certo d'armas, cavallos, livré e arreios, foi gente mui luzida e mui aparelhada para fazer um bom serviço.
El-Rei D. João de Castella, para execução do que desejava, tinha já cercados na villa de Olmedo a El-Rei de Navarra, e ao Infante D. Anrique seus cunhados, com muitos e grandes senhores de Castella. Os quaes esforçados na muita gente que comsigo tinham e confiados que pela antiga criação e conhecimento que tinham d'aquelle reino, e assi pelo desamor que geralmente tinham ao Condestrabre, que as gentes d'El-Rei quando os vissem em rompimento e perigo os ajudariam, e temendo outrosi a gente de Portugal, que tambem ia sobr'elles, e vendo que por isso o cerco por muitos inconvenientes lhe não cumpria, determinaram poer seus feitos em ventura, e dar, como deram, batalha a El-Rei, em que foram de todo vencidos, d'onde o Infante D. Anrique sahiu ferido em um braço, de que a poucos dias falleceu em Aragão. E El-Rei de Navarra se acolheu fugido a seu reino sem mais vir a Castella; ainda que o depois muito procurasse.