D'este caso assi como passara foi o senhor D. Pedro em Cidad Rodrigo avisado. Sobre o qual os do conselho d'El-Rei, que com elle eram, praticaram o que fariam. E acordaram que deviam todavia proseguir sua viagem como fizeram, e que do caso acontecido avisassem logo El-Rei seu Senhor, e a El-Rei de Castella notificassem sua ida. E com isto feito foram fazendo suas jornadas, até chegarem á cidade de Touro, onde o Condestabre D. Pedro houve resposta d'El-Rei de Castella, em que lhe rogava, que assi como vinha o fosse vêr, como foi, á villa de Maiorca, onde já com toda sua côrte estava, e em seu recebimento lhe foi feita honra mui assinada; porque El-Rei com toda sua côrte sahiu ao receber, mui contentes de vêr um Principe em todo tão proporcionado, em que muito acrecentava a graça das ricas armas em que ia vestido. E depois de passarem alguns dias, em que d'El-Rei e dos grandes de seu reino, foi com muitas honras e festas tratado, El-Rei com os aguardecimentes que em sua ida cabiam, lhe disse: «Que pois seu serviço lhe não era necessario, que se poderia tornar para Portugal. E como quer que o Condestabre muito insistisse para ficar e o servir; como d'El-Rei seu Senhor, e do Infante seu padre trazia ordenado, El-Rei não quiz, posto que lhe requereu e desejou que com a gente sómente que para o servir fosse necessaria ficasse aforrado em sua côrte. Mas aos fidalgos que com elle iam não pareceu razão leixa-lo assi, sem prazer do Regente. Pelo qual El-Rei o despediu com dadivas de joias e cavallos, e mullas e outras cousas de grande preço, e não falleceram outros muitos grandes senhores d'aquelle reino que lhe offereceram seus presentes, de cousas que sua idade e tempo requeriam. Mas para d'outrem algum não receber nada, salvo d'El-Rei, teve as mãos tão castigadas, como as fez soltas em dar e fazer grandes mercês a aquelles que semelhantes cousas lhe apresentavam, ainda que com ellas se tornassem, e d'esto se escusava com tanta humildade e cortezia, que bem parecia que não era por algum vicio de presumpção que n'elle coubesse.

E assi com sua gente na ordenança em que fôra, e com bandeiras tendidas se tornou a Portugal e entrou por Bragança, e na villa d'Aveiro achou El-Rei e com elle o Infante seu padre, d'onde despediram os fidalgos e a gente que com elle fôra, dando pelo serviço que fizeram muitos aguardecimentos com as mercês que cada um por sua confissão merecia, e isto passou no anno de mil e quatrocentos e quarenta e cinco.

CAPITULO LXXXVI

De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como El-Rei lh'o tornou a dar

E consirando o Regente, como para o Janeiro do anno que logo entrava de mil e quatrocentos e quarenta e seis, El-Rei D. Affonso cumpria idade de XIV annos, em que, segundo fôro d'Espanha, qualquer Principe Real deve haver inteira posse e administração de seu reino e senhorio, e lembrando-se isso mesmo da obrigação em que por sua fé e juramento ficara de a este tempo livremente lhe entregar o reino, querendo inteiramente assi cumprir, fez para isso côrtes geraes e solemnes em Lisboa, e na salla grande dos paços, sendo El-Rei com os Infantes e senhores, e seus officiaes e procuradores, em sua costumada e antiga ordenança, o doutor Diogo Affonso Mangancha, em nome do Infante D. Pedro, fez uma louvada oração, cuja sustancia se concludio em quatro cousas.

«A primeira, apresentar e entregar alli El-Rei em tal disposição de sua pessoa, siso e entender, manhas e virtudes, como de sua edade não cria que no mundo outro tal houvesse; porque dava e dessem todos muitas graças a Deus. A segunda, que no regimento do reino que todos lhe deram, como quer que para o bem fazer, elle com todas suas forças, entender, e diligencia fizera muito a além do que podera; porém que pelo grande trabalho, que em nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de tantos desvairos e balanços como no seu se seguiram, elle confessava tel-o feito muito áquem do que devia, de que pedia perdão. A terceira, em dar aguardecimentos áquelles, que no tal caso bem e lealmente serviram e ajudaram, guardando nas palavras o acatamento, mais e menos, segundo cabia nas calidades das pessoas e estados do reino que eram presentes. A quarta conclusão foi, que em caso que não fôra direito nem costume aos Principes de tão pequena edade, como eram a quatorze annos dar-se livre poder de per si regerem reinos e senhorios, que a El-Rei seu Senhor vista em todo sua perfeição, por graça especial lhe devia ser dado, como a outro que fosse de muitos mais dias. E que para isso lhe entregava alli mui livremente, e sem cautella, seu Regimento.» Metendo-lhe logo com rostro mui alegre a vara da justiça nas mãos, que em giolhos e com muito acatamento lhe beijou.

E depois d'El-Rei ser recolhido á sua camara, onde era o Infante D. Fernando, seu irmão, e o Infante D. Anrique, seu tio, com outros muitos senhores, o Infante D. Pedro, praticando com elle a maneira que d'hi em diante teria em reger, El-Rei depois de bem ouvir, lhe pediu que até vêr o que n'isso poderia fazer, elle inteiramente mandasse e fizesse em seu nome o que d'antes fazia; porque receava de per si só sem sua ajuda ou d'outrem não poder com tamanho cargo.

E de hi a tres dias se fez na ordenança passada outro ajuntamento, em que o mesmo doutor Diogo Affonso em nome d'El-Rei fez outra falla, porque sustancialmente se declarou «que havia por recebido em si do Infante D. Pedro seu tio e padre o inteiro regimento de seu reino, dando-lhe, por isso com largo recontamento de seus muitos serviços e merecimentos, grandes agardecimentos com muitos seus louvores, outorgando-lhe não sómente auctorisadas quitações de todo o tempo de sua governança; mas ainda por maior sua honra, que ficasse em registo por verdadeiro e claro testemunho, da obrigação em que por isso ficava a elle e a seus filhos, com todolos que d'elles descendessem; porque conhecia e declarava que nunca algum Principe fôra no mundo com tanto amor e em tanta perfeição criado, nem em manhas e costumes reaes tão bem ensinado, nem com tanta lealdade e obediencia servido e tratado, como elle sempre fôra do Infante D. Pedro seu tio e padre; porém porque elle ainda não tinha idade para per si só reger sem perigo de si mesmo e das cousas que regesse, nem tivera a pratica e esperiencia d'ellas como para Rei cumpria, e era por isso necessario tomar alguma pessoa que no regimento o insinasse e ajudasse, e por todos respeitos, causas e razões, não havia em todos seus reinos outro para isso mais pertencente que o mesmo Infante D. Pedro, que elle de seu proprio moto, sem lembrança nem requerimento d'alguem o escolhia para isso, e havia por seu serviço e por bem de seus reinos que elle Infante tornasse com elle a reger e governar seus reinos, assi como d'antes fazia, até elle se sentir em desposição para per si só o poder fazer, mandando que a obediencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em diante lhe guardassem muito mais inteiramente.»

E aos grandes e povos de seus reinos que eram presentes, em sua presença mandou muito agardecer por lhe requererem e darem por mulher a filha do Infante D. Pedro seu tio e padre, de que sobre todalas cousas do mundo, por muitas razões era mais contente; mas porque este seu casamento quando primeiramente foi em Obidos celebrado, por ventura por se fazer ante de haver idade cumprida e necessaria, para isso sem sua aprovação pareceria defeituoso, elle que então a tinha já para isso de todo perfeita, o aprovava e consentia, como se n'aquella hora de seu prazer, e com sua inteira liberdade novamente o fizesse.

CAPITULO LXXXVII