De como as filhas do Infante D. João foram casadas
E no começo do anno de mil e quatrocentos e quarenta e sete, o Infante D. Pedro se partiu com El-Rei da cidade d'Evora, para o lugar das Alcaçovas, onde por concerto veiu a Infante D. Isabel, mulher do Infante D. João, e trouxe comsigo duas suas filhas, que alli ambas juntamente casaram; D. Isabel que era maior com El-Rei de Castella, por Garcia Sanchez de Toledo, que como seu procurador e embaixador a recebeu, e D. Briatiz com o Infante D. Fernando, por elle mesmo. E do casamento que prometeu a El-Rei de Castella, que foi cem mil florins d'Aragão, se seguiu a este reino pouca despesa; porque os recebeu El-Rei de Castella em desconto do soldo que era obrigado pagar á gente do soccorro, e da ajuda que El-Rei de Portugal lhe enviou com o Condestabre seu primo, como atrás já disse.
E no Maio d'este anno, que era o tempo da entrega da Rainha, em que se concertaram El-Rei e o Infante seu irmão, com todolos senhores e pessoas principaes do reino, fizeram em Lisboa por honra da Rainha umas grandes festas, acabadas as quaes, o Infante D. Pedro, acompanhado grandemente, levou a Rainha a Coimbra, onde foi festejada, e d'hi á villa de Pinhel que é em Portugal, onde era concordado que El-Rei de Castella havia de vir em pessoa, para lhe ser alli entregue e a levar, e elle não veiu, de que com palavras honestas e de receber, se enviou escusar por certos senhores e grandes de seu reino, a que a Rainha com seu poder e auctoridade foi entregue, e lh'a levaram.
CAPITULO LXXXVIII
Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem pediu ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou
O duque de Bragança, e conde d'Ourem, e o Arcebispo de Lisboa com outros de sua valia, não ficaram sem grande paixão de ser o Regimento do reino outra vez tornado ao Infante D. Pedro, e o duque publicamente por Gonçalo Pereira, que se dizia das armas, o contrariou nas côrtes por uns apontamentos que a ellas enviou. Mas não foi então ouvido; porque o coração d'El-Rei ainda não era de falsos testemunhos corrompido, nem cheio das erradas suspeitas contra o Infante, como ao diante foi. Mas em fim taes rodeios tiveram, principalmente o duque e conde d'Ourem, e taes incitadores buscaram e meteram secretamente ás orelhas d'El-Rei, que o comoveram para o que quizeram, que foi requerer, como requereu ao Infante D. Pedro que lhe leixasse livremente o regimento, porque só sem outrem queria reger.
E o Infante bem conheceu que tal movimento, e a tempo tão antecipado não nascera na propria vontade d'El-Rei, mas que fôra n'ella semeado por engenho de seus imigos. E porém lhe disse que elle era d'isso mais ledo e mais contente, do que por ventura lhe fariam crêr que o elle seria; porque quando elle nas côrtes que então foram, se escusava aceitar outra vez o regimento para que o forçava, bem via que lhe dera Deus tal siso e tal disposição, que per si sem outra ajuda poderia reger estes seus reinos e outros maiores; porém pois assi era sua vontade, que lhe pedia por mercê que com o regimento juntamente quizesse tambem tomar sua mulher, pois era em edade para isso; porque assim faria mais por sua honra e estado. No que El-Rei então consentiu; e ficou logo entre elles tempo assignado para isso, no qual o Infante se percebeu dos corregimentos e cousas que para a pessoa d'El-Rei e da Rainha, e assi para sua casa e camara cumpria; mas El-Rei por induzimentos d'alguns, e do Arcebispo de Lisboa principalmente, que de noite lhe ia falar, não esteve pela concordia em que ficara; porque antecipou o tempo, e tornou requerer o Infante, que logo leixasse o regimento; porque antes de casar elle inteiramente queria reger, cá em outra maneira não seria sua honra nem convinha a seu estado, ao que o Infante por não dar causa a mais danamento, logo satisfez e desistiu em todo do mandado e governança que tinha, em tanto que as cartas e provisões que d'antes foram por elle desembargadas, e eram feitas para se de seu nome assignarem, não as quiz mais assignar, nem entender em cousa que a regimento pertencesse.
E porém El-Rei no mez de Maio de mil e quatrocentos e quarenta e sete, em Santarem, tomou sua casa e sua mulher juntamente, com as benções e cerimonias pela Santa Igreja em taes casos ordenadas, e com alguma mostrança de festas, mas não foram n'aquella perfeição e cumprimento que o Infante quizera e tinha ordenado. Porque como leixou o regimento, logo todalas cousas ainda que fosse sem culpa sua, para seu desfavor lhe volveram as costas.
CAPITULO LXXXIX
Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o Infante fóra da côrte