CAPITULO VI
Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de conquistar o Algarve, que era dos Mouros
Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve, como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu grande soccorro e ajuda Dafrica.
Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis, e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.
Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram, que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.
E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos, como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande esperança de haverem victoria.
E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam, volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam o Furadoiro, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.
CAPITULO VII
Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com elle batalha em que foram vencidos
Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla, porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra, que é nossa».