E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e vindo por seu caminho direito, que dizem o Almargem, junto do qual os Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus, que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois chamaram a Cabeça do Mestre, donde pela fortaleza do lugar se defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.
Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi para Cacella.
CAPITULO VIII
Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla
Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados, mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado fim de sua empreza lhe eram neccessarias.
E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições, não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.
Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla, passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa, e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa Villa».
Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar, e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».
Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me basta, pois é em serviço de Deus».
E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram, dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro testemunho.