Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado, ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.
CAPITULO XXIV
Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera segurança desso se fizeram.
E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia, e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.
Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D. Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice, que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua caza, e de seu favor.
E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D. Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal, e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia, e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S. Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.
CAPITULO XXV
De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D. Diniz, sobre has dezavenças com seu pai.
Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.