Servo dos servos de Deos

«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca, e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam, e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer, cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos, que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno, porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso, porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua propria saude.

Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos? Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam, pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.

E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.

Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.

Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.

E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre, noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem, ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor, daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos ante Deos».

Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada, mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante direi.

CAPITULO XXVI

Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D. Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram.