Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado pelas brisas da mocidade demandou a capital, cujo ruido o captava em extremo.

Dirigiu-se para Lisbôa e ahi fixou residencia.

Para qualquer que o visse seria o seu rosto gentil e levemente effeminado o mais seguro passa-porte de uma fina e aprimorada educação.

Usava de ordinario fato preto a que dava realçe uma esplendida camelia, artisticamente collocada na boutonniére.

Elegiaco por condição nada havia que o satisfizesse. Um vacúo immenso lhe torturava a existencia. Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, experimentava de continúo um mal-estar insupportavel, atroz, corrosivo, e porventura uma doença impossivel de definir-se.

A sua compleição delicada, e consumida pelos vinhos, agitava-se alternadamente entre dois mundos infinitos e contradictorios. Amava e não amava, queria e não queria, pensava e não pensava.

Alto, magro, nervoso tudo o impressionava com uma fatalidade irresistivel. O mundo era-lhe um phantasma sombrio, chimerico, cuja sombra elle amaldiaçoava, a todas as horas, no café, na rua, no bordel, na sociedade emfim.

Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode louro, a sua cabelleira phantastica, e os seus sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente ironicos.

Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito, aproveitando-lhes o corpo e a carne, como um mero passa-tempo social.

Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente, loucamente, profundamente.