Aproveitou a serenidade do crepusculo para lhe fallar. Disse-lhe o que sentia. A creança encarou-o duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se amavelmente.
Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella n'um immenso, escuro pinhal. Ali confidenciaram largamente. Juraram amar-se.
E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou acredital-a.
Desgraçado do moço, que tinha um coração, impossivel de esmagar.
Quando, passados annos, lhe disseram que ella se havia tornado uma grande mulher do mundo, a eterna bas-bleu dos salões, sentiu-se inanimado quasi, imbelle, exangue.
Tentou afastar de si o gélido phantasma que o perseguia sem cessar, e que mesmo em vida lhe seria triste mortalha. Em cata d'ella correu, voou. Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela quarta vez, a contemplou mais scintillante que uma esmeralda e mais loura ainda que um archanjo.
Á sahida do espectaculo experimentou um estranho choque no seu hombro direito. Olhou e viu-a a ella que lhe acenava com uma das mãos. Aproximou-se então. No lagedo da sala existia um pequeno bilhete que elle apanhou cuidadosamente.
«Espero-o amanhã, á uma hora da tarde»--escrevêra ella a lapis.
E, cheio de anciedade, tambem elle esperou pela aprazada hora.
Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. Um singular ruido lhe captou os sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria descompostamente.