«Á meia noite, quando a lua campeia no seu eterno throno de magestade e de bellesa, apraz-me pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e nas tuas phantasticas promessas.

«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e cheio de sombras. Ha dias, entrando n'um pinheiral, cuja verde ramagem se agitava doce e harmoniosamente, como uma harpa do céu,--lembrei-me de ti.

«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. Ao longe o oceano, como um leão esfaimado, enchia a terra com a sua musica rouquenha e sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens ainda, retintas pelos raios afogueados do sol, percorriam o espaço de norte a sul.

«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente. Soltei um grito e vi uma creança que para mim corria de braços abertos. Foi uma apparição de Deus.

«Que linda, que formosissima creança!

«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do que nunca; e, Deus me perdôe, pensei na creança, que, um dia, fructo das minhas entranhas, uniria para sempre as nossas duas existencias, n'um unico beijo, n'um unico abraço, n'uma unica ideia.

«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.

«A Viscondessa de B***.»

Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou uma furiosa gargalhada, deixando, ao mesmo tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos frouxos e nervosos.

--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio esta viscondessa, um lyrio a desabrochar. Se não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam esta, que é a ultima.