No salão crusam-se os pares: elles, fragrantes, como uma rosa de Bengalla; ellas, voluptuosas e tépidas, como uma brisa do Oriente.
A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de marmore oleosa e de difficil lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes e de vidrilhos verdes. A mobilia, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em symetria com os mais encantados jardins de Granada.
As janellas abertas atraiçoam os segredos dos namorados. Como relampagos, reflectem-se na praça as vertigens da walsa.
Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz phantasticamente. A cada um d'estes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce companheira da tristeza, vae illuminando o espaço, o mar e as solidões.
As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. N'um esplendido vaso de porcellana de Sévres, abre uma mimosa camelia as suas longas e avelludadas petalas.
Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o espaço ladrilhado das janellas de sacada.
Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam de falar. Em redor d'ella tudo se apinha, tudo se confunde, tudo se baralha.
A valsa recomeça. Nos espelhos de crystal reflectem-se as estranhas imagens, que, n'esta noite, povoam o salão. Sobre as piscinas de marmore debruçam-se as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas implumes feitas de pedra e de calcareo.
Estremecem docemente os cortinados da janella. Os peitos arfam de cançados; e na parede o papel, como que exhala uns mysteriosos e prolongados calores.