Por uma fresta, lavrada no alto da parede, côam-se tristemente uns tenues raios de luz. Dir-se-hia que á desgraça até o sol é vedado.
Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se uns bichos infernaes, molles, gellalinosos. O tecto, artisticamente cinzelado pelo longo e imperioso trabalho da aranha, quasi se não distingue d'entre a escuridão que cerca o aposento.
E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa em intima dôr, abandonada aos vermes que lhe róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?
Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de venturas e mimos deslisára a sua vida, sem mais attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá o tempo e a natureza.
Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos sonhos gentis da opulencia, Maria sentiu-se a um tempo admirada e requestada pela mais guapa fidalguia do seu paiz.
Seus paes, habituados áquelle unico thesouro, eram inexoraveis no cumprimento das suas profundas e intimas affeições. Nada exigia, que para logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no elles realisar com a satisfação de um escravo, que por sua senhora arriscára a vida.
Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e candido, não houve vento que lhe açoutasse as tenras vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs, e a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr e de esperanças.
Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso. No espaço precipitaram-se as nuvens, prenhes de electricidade. A arvore, mal segara, tremeu na sua raiz, e desappareceu da terra.
Onde estava Maria? Porventura iria ella em busca de algum anjo bom, seu irmão?
Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára resistir á fatalidade que a dominava. Fugiu. Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella de sacada, e á meia-noite.