Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, excitou naturalmente a indignação publica. A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés, concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, impossivel de admittir-se no seio de uma familia honesta e séria.
Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes, o caso era mundano, e frequentissimo até em mulheres demasiadamente imaginosas.
Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não para a vida, mas para a morte.
O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente numa pallidez transparente, sepulchral, doentia. Os olhos, encovados, haviam perdido o seu primitivo brilho. Nada existia já que não fosse triste e profundamente doloroso.
A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás mãos de um maltrapilho infame. O miseravel seductor, retirára comsigo o seu dinheiro e o seu carinho.
Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, sem pae, sem mãe, sem irmãos, sem amigos, olhou em redor de si, e viu a sociedade que de longe lhe acenava.
Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se nos seus prazeres, trocou a honra pelo pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e chorava tambem.
Era nobre, e pagava pela corrupção commum...
A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e tanto bastava.
Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a pobresa e a miseria.