A aspiração é sêde que se não extingue. Mas aspirar sem esperança; anceiar sem uma possibilidade de realisação final, deve ser triste, muito triste, para já não dizer desesperador.
Para voar, concede a naturesa azas á aguia. Assim tambem para sermos livres, rigorosamente livres, para executarmos os vastos planos da nossa vontade, carecemos nós de meios, sem os quaes tudo nos seria baldado e inutil.
E dizem que a lei é egual para todos!
Entre dois cidadãos--um casado, outro solteiro, um pobre outro rico--que soffrem a mesma pena, onde é que está a egualdade?
Divagando, porém, iamos fugindo do nosso caminho. Voltemos ao romance.
A policia não afrouxára nos seus esforços. Indagou, correu, perguntou. Ao cabo de uma semana, estavam seis individuos dados por suspeitos. Entre elles indigitára-se Julio como um dos principaes cumplices no crime acima descripto. Se fôra ou não acertada a escolha, isso só os factos posteriores o poderão affirmar. Por agora basta que o leitor nos acompanhe.
Dolorosa é a recordação do carcere. Sem luz e sem ventilação, são as nossas cadeias uns verdadeiros antros, cuja atmosphera impregnada de particulas venenosas, quasi sempre gera no seu seio os vicios mais execrandos e as doenças mais incuraveis.
Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo, poderá, talvez, iniciar-nos nos verdadeiros mysterios d'este inferno.
Ouçamol-o.
Um homem rico decahira um dia da sua fortuna. Habituado ás commodidades da vida, encontrou-se repentinamente privado do necessario. Acostumado aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou. Quatro filhos o encaravam. Uma esposa lhe sorria. Fôra bom o seu coração. Nunca até ali se dera um unico facto que lhe manchasse a consciencia. Examinou os bolsos. Dinheiro não havia já. Recorreu ao trabalho. O trabalho fez-se esperar. Mendigou. Ainda era pouco. Os filhos continuavam a chorar. A esposa continuava a morrer. Que fazer, pois? Roubar. E roubou. Roubou um pão porque tinha fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel como a Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para o Limoeiro. Pediu-se, sollicitou-se, em nome da desgraça. Tudo embalde! Os poderes publicos cumpriam o seu dever. N'uma casita humida, situada ao Salitre, definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro creanças e uma mulher. No Limoeiro creava-se mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E tudo isto com uma prodigiosa simplicidade.