De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se insupportavel, medonho, confuso.

--Traição... traição...--repetiram todos.

E o silencio recomeçou de novo.

[XII]

Perigos e consequencias

N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes os crimes mais graves, castigando-se os mais insignificantes.

A lei penal muitas vezes dá existencia aos crimes, imaginando penas para delictos imaginaveis.

Parece que a justiça social nem sempre cumpre o seu dever. O roubo corre muitas veses authorisado pela lei, n'um inpudor por tal fórma insólito, que de vergonha faria córar uma bachante.

A cada passo, e com a maior facilidade, se sancciona uma injustiça. Quem não tem padrinho, morre mouro--diz o rifão. E o certo é que o pobre, o eterno Job da orphandade,--se não morre mouro, morre, pelo menos, de atrophia, indigente, sem pão, sem agua, e o que é mais, sem espirito.

Ao percorrer as humidas cavernas--morada e abrigo dos proletarios--de dó se nos enlucta o sentimento. Como é que a Providencia tão prodiga e generosa; como é que o sol, alargando seus raios encantadores, tanto pelas cumiadas das montanhas mais longinquas como pela escuridão dos valles mais reconditos--como é que todo este mixto de luz e de céu, póde consentir o infortunio no mundo?