A Viscondessa

São decorridos quatro annos.

A Viscondessa, docemente reclinada numa chaise longue, lê os annuncios do Diario de Noticias, sorvendo, de quando em quando, uns gólos de café, com a evangelica paciencia de uma mulher aborrecida.

Ao longo da parede do quarto destacam alguns quadros, representando, entre outras, as magestosas imagens de Ninon de Lenclos, de Marion Delorme, de Madame Pompadour, da Dama das Camelias, etc.

São nove horas da noite. Alfredo chega; põe o chapéu em cima d'uma ètagere, onde, por acaso, se encontram algumas musicas em desalinho, e, accendendo resignadamente um charuto havano, vem sentar-se n'uma cadeira, defronte da Viscondessa.

Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma bandeja de prata, coberta de pequenas garrafas de licôr.

Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mão esquerda, dá um geito gracioso ás guias do bigode.

A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo lento e medido, na direção da porta de entrada.

--Então já Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.) Porque eu entrei, assim te retiras immediatamente. Comprehendo tudo. Declaraste-me um amor profundo, ethéreo, como só o sabe ter uma virgem, e hoje nem sequer alimentas por mim uma indifferença vulgar, uma d'estas indifferenças que um estranho facilmente dispensaria a outro estranho. Pobre de ti, desgraçada, que jámais serás feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha, não é verdade? ao meu amor unico preferiste uma coterie numerosa, aduladora, que te lisongiasse o paladar já extincto? Pois bem: tu te arrependerás um dia. Até lá, porém, lembra-te que será eterna e implacavel a minha vingança, eterna como a Providencia e implacavel como a tyrannia.

--E és tu quem me falla em vingança; tu, Alfredo, a quem eu, ainda pura, loucamente entreguei o meu coração e o que é mais ainda a minha honra... tu! o miseravel, que jurando amar-me te rias de mim nos botequins e nos restaurantes; tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade e da minha singelesa... oh! não... por Deus, não...