Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos assim as tivessem!...
[XXX]
Glorias do operario
Entretanto o nosso operario, agora já transformado em negociante, vai seguindo o seu caminho, a despeito da intriga e da inveja, com que a sociedade, em geral, costuma premiar o trabalho e a honradez.
Julio, retemperado no cadinho dos grandes soffrimentos, fizera-se homem repentinamente. Julgando apagada a imagem da Viscondessa no seu espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se habitualmente ás seis horas da manhã, ia receber as ordens da sr.a Felisbella, e partia. Só regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora em que elle tomava chá. E este programma, assim praticado, com a regularidade de um pendulo de relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser n'um ou outro domingo.
A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam os freguezes, e com razão, que a bôa alma de Francisco Alves em nada ficára a dever ao sr. José Xavier.
Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio de commissões maritimas, de cuja responsabilidade auferia annualmente sólidos e lucrativos interesses.
Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, tão prudente, como indispensavel nas cousas da vida. O nome de José Xavier acreditara-se solidamente na praça do commercio. Muitos invejavam já a fortuna do mercieiro; muitos o calumniavam tambem. Entretanto Julio, com aquelle orgulho que só a consciencia sabe dar, era invariavel, senão implacavel, na missão que voluntariamente se imposera.
Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, parasita do Chiado.
--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o Maryalva.