Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama Puerta del Sol. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos despreoccupados do mundo, aos flaneurs do bom tom e á fina èlite dos salões madrilenos.
Que contraste! Na propria sociedade{43} hespanhola, que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.
Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do savoir-vivre, isto é, o segredo da conservação e da hygiene individual.
Sem sahir da Puerta del sol, o viajante poderá, se quizer, fazer um telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde actualmente se acha o ministerio da governação, e poderá, tambem, se assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico café Imperial ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar que lhe reservem um quarto no Hotel de Paris.
Sahindo da Puerta del sol encontramos duas ruas quasi parallelas—a rua Alcalá{44} e a Carrera S. Jeronymo. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal, erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A Puerta de Alcalá, a primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:
REGE CAROLO III
ANNO MDCCLXXVIII.
Além d'esta ha ainda a Puerta de Toledo, situada no fim da rua do mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o desejado.
E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que não esqueçamos as duas principaes praças da cidade—la plaza de Oriente e la plaza Mayor.
A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta{45} e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar os monarchas hespanhoes.
No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com a cruz de Sant'Iago.