Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha, pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o sympathico auctor da Politica radical, tem consagrado quasi todos os annos da sua{52} vida á solução d'este notavel problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham na vanguarda da civilisação.
É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:
«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente estaria mais perto da liberdade».
E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.
E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia positiva.
Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo, que, onde as escolas escasseiam, ou onde a{53} maioria da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.
Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel, fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;—Emile de Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo, ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser instruido.
Necessaria, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos deviam saber ler, contar e escrever—o que, mutatis mutandis, vinha a dar o mesmo.
Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de 20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias, appareceu pela primeira vez neste paiz.
E, no entretanto, as escolas continuam{54} sem frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo sub-lunar.