O sr. Levasseur, membro da commissão franceza, na ultima exposição internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100 habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.

Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente desfavoravel.

Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria, se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.{55}

Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de familia, nunca a instrucção obrigatoria será levada por deante, na peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas, faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é, creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.

Mas a Hespanha, litterariamente, ao menos, tem uma vida propria, sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.

Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que a vida de Lisboa;{56} e de tal modo que o nosso povo mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época, senão como um facto accessorio da vida portugueza.

E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa viagem—escreve Castelar—tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do Romancero e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses,{57} e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava enthesourada».

Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido foi Lope de Vega.

A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam aproximadamente 60 jornaes. Da Universidade Central, situada na rua de S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem bachareis.{58}

Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.