E posto isto, tratemos d'outro assumpto.{59}

[VII
TEMPLOS E RELIGIÃO]

Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do mundo a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus cabellos, desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira mascara de seda, põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os seus sapatinhos de setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva preta, e penetra soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda, para, num sorriso de perdão, a absolver das suas culpas e dos seus peccados.{60}

É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é—de alegrias e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de descrença, de riso e de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de morte.

O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos plangentes; Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o padre, oh! o padre, o grande ladrão!—como raposa que espreita o galinheiro innocente, acocora-se no confissionario, á semelhança de gallo, que em materia de instinctos é useiro e vezeiro.

E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida—terás de ouvir silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas as dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.

Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a via do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia, que depois te dará a communhão.

Que maldicta manhã não passarás, minha pequena catholica!—lembrando-te{61} das travessuras de que a consciencia te não accusa, e tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os segredos que te vão no coração atribulado.

Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de todos os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um affecto.

Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido, que toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar a sua vida ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, au clair de la lune, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso breva e nos diz umas doces palavras mysteriosas....