Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os particulares que não possuam tambem o seu museu.
Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre outras raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke traçára a guerra franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha cingida á cinta na noite em que o assaltaram. Muitas reliquias portuguezas me foram tambem mostradas, e creio até que uma do fallecido visconde de Castilho.
Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto aceio e tanta maravilha.
Sobretudo—que maravilha!{82}
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A MUSICA]
Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade impreterivel.
Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem da taberna muitos{84} centenares de operarios. É que a attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias dôres e dos proprios soffrimentos.
Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.
Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do meio dia.
Na Africana, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes, harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.