Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á concentração{85} intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.

Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.

Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.

Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a phantasia.{86}

A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a verve, o frescôr animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.

A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla ecletica; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do Fausto, e o de Berlioz, auctor do Manfredo, que para muitos foi o predecessor de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.

A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola allemã, toda subjectiva, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de{87} esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito da humanidade, e a escóla italiana, toda objectiva, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.

Os dilletanti do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.

Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.

Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.