Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da ventarola agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna chamma do amor e docemente embriagada pelo Xerez do sentimentalismo peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso—Madrid resume em si a altissima idéa industrial{92} do chocolate e o singularissimo pensamento politico do café.

Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso companheiro inseparavel, o nosso bâton da manha e a nossa badine da noite.

Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo vivido enthusiasmo d'este magasin pittoresco—a leitora será mansamente despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de abril, mas sim por um mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o que lhe indicará muito claramente que, não longe d'ali, a está esperando uma gentil creadinha com uma simples chavena de chocolate.

E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que, se estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um amigo, e na China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.

Ora, em caso de luta, eu prefiro o{93} chocolate, porque, emfim, nem nos torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; que a fallar a verdade elle—que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, a poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte—elle, o chocolate, é sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.

Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não canto as mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos infernaes—eu, em ti, formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto é, a revolução e o futuro.

Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de la Saragoza. Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo diariamente.

Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito, falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o mysterioso, que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto, orgulhosos de si mesmo.{94}

A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a olympica, faz duas ou tres corridas por anno por politicas differentes, e inventa revoluções, que, por causa do chocolate, apenas poderão durar poucos mezes.

As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto com azas, e portanto, com perigo.