Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o Imperial, o Oriental, o das Columnas e o de Levante, na Puerta del Sol, o Suisso, na rua de Sevilla, o da Iberia, na Carrera de S. Jeronymo e o Fornos na rua de Alcalá.
O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles encontrará vida, apetite e enthusiasmo.
Portanto—à l'aventure!{99}
[XII
O SALERO]
Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a virgem pura dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a rainha—a sr.ª D. Cecilia Fernandes.
Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não deve a sua existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a Stellpflug, o sapateiro.{100}
Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande dama d'honor de todos os paços, do grande, do supremo Bobeche de todos os ministerios, do grande Pierrot de todos os tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do salero.
O salero! Caramba! Sabe a marqueza o que é o salero? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou Mabille; nunca dançou um can-can simples, um d'estes can-cans que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não fingia, não brincava?{101}
Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha salero, e era hespanhola.
Mas, perdoe-me a leitora, para se ter salero não basta só conhecer o Terreiro do Paço e o Rocio, ir de quando em quando a S. Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o Passeio publico, como qualquer simples burguez.