Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter salero saia de Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de andaluza, frequente todos os dias o Prado e o Retiro, entre no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo—emfim, minha querida senhora, se quizer ter salero seja hespanhola.

Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques—nós, os portuguezes, nem temos a coquetterie franceza nem a seriedade britanica; de modo, que, imitando{102} a todos, ficamos sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.

Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena lacuna deselegante, rotunda e burguesa—tal deve ser a missão da nossa mulher.

Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é que somos a riqueza, o credito e a virilidade. Nos quoque gem sumus....»

E dito isto—que mylady, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar vir uma boa carroagem Daumont; que mylord, o sr. duque, mande preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o demi-monde procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, adquirindo assim, em virtude da thesoura, o chic e a pose de quem muito viajou.

Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma unica{103} condição se requer—pagar aquillo que se deve.

Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse salero—que o comprasse nos cafés, nas calles, na Puerta del Sol, que o adquirisse no Prado e no Retiro, onde diariamente apparecem de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje 60 libras, e appareça um dia no Bois de Boulogne; decore dois ou tres bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com verve, avec de l'esprit—numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a Inglaterra.

E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do coração.{104}

Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de ardor verdadeiramente meridional—alguma cousa do facetado do crystal e da delicadeza da porcellana; nem possue o coquettismo da franceza, porque lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, nem a mènagerie da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a negação d'esse viver intimo e famillar.

Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter—ella tem o salero, isto é, o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce laisser-aller da arte, que é luz, e magnetismo—luz, que abrasa em sua chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real, selvagem como o matar de{105} um touro, o esfaquear de uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia—ella, a hespanhola, ella não é verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:—ella é um rapaz de saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade, pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as reveste.