Oh! as hespanholas! as originaes!...

As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas ella—por Deus!—ella é o que é—só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica, originalissima.

Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á propôs e tão seu, aquelle salero, e, sobre tudo isto, fazem com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e extraordinarios—a energia e o salero, isto é, o chocolate na sua consequencia digestiva{106} e physiologica—o movimento e a graça.

Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas—tomemos o chocolate e tenhamos salero.

Caramba! que salero!...{107}

[XIII
THEATROS]

A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio de colera ou por uma faisca de trovoada—é o theatro.

Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na mise-en-scene de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...

Ao ouvir as doces malagueñas e as ternas seguidilhas, desferidas por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se{108} são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de bailadeiras que seduzem, e de amores que fervem.

Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes, aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se, à la belle etoile, e a occultas da parentella, intentasse o rapto d'uma d'aquellas formosas sabinas, mais diabos que o proprio Diabo e ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...