Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol—é a zarzuella, especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de Satanaz.

Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do demi-monde;{109} creação necessaria no meio das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até á ultima grisette, que, por causa de um estudante do bairro latino, tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a zarzuella não succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.

Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica—o riso, a ironia, o sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas zarzuellas notaveis, possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o dulcifica.

A Grã-Duqueza é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia estonteada, um quadro fiel das cocottes, arvoradas em mandadeiras de exercitos,{110} uma photographia de costumes pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um monarcha infame; o Jogar com fogo é um entre-acto agradavel ás acenas da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.

E é o que tem a zarzuella: não cança nunca, porque foi um producto natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o salero; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.

A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da zarzuella nem a elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto, passageiro e ephemero.

Numa palavra, a zarzuella tem as suas raizes nas immutaveis oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a opera-buffa originou-se{111} numa sociedade de transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas positivas e scientificamente organisadas.

Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a zarzuella, e em quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só os hespanhoes a sabem cantar.

Quando, pela primeira vez, entrei no Theatro Real, situado no largo de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.

E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso, açoutado pelo simuon e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente transportada{112} a um paraiso, onde adejam os cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces louras.