Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá, onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente chamado—Romeu e Julietta.
Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa do Theatro real não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus habitués.
Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da zarzuella. De zarzuella... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão harmonicamente produzidas!
Representava-se então uma velha zarzuella, muito velha e muito ouvida, mas{113} sempre fresca no rhythmo e no pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos fallar de Pan y toros.
—Panem et circenses, gritavam os romanos; Pan y toros, exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de facto, existe entre um e outro paiz. Mas—cousa singular! a França tambem é de origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente—ou pão ou chumbo.
E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos milliarios da humanidade trabalhadora.
Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia. Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece{114} haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o caso nada era.
—«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um homem morto. Apenas um homem morto!»
E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.
Ora nesta zarzuella transparece perfeitamente o caracter hespanhol, irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas labyrinticas phantasias de occasião.