Mas, certamente, meus caros concidadãos—a patinação não e simplesmente um espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral, que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no Bairro Alto, em pleno dia.

Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça, sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias modernas.

Honra soit qui mal y pense...{124}
{125}

[XV
TOURADAS]

A los toros! a los toros!...

E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados, cortejava a realeza que passava, dava vivas á Marselhesa, e fugia, fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os espectaculos do mundo.

Ó Hespanha, minha querida amiga, doce{126} filha dos cafés e da volupia, tu, que possues museus que te são um legitimo patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha perola, tu não devias ser torera.

Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os joelhos lhes tremem á vista do adversario.

Que valentões! que valentões...

Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu{127} filhas tão formosas?—para que? Não te bastava já o chocolate, para, á semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e salero atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...