Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma braza—a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece, um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo—purga-te, manda vir da botica duzentas grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia{128} calcinada;—fóra, fóra com essa bilis que te devora o organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.
Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam viris, musculosas, corpulentas—ellas, que uma hora antes tinham acceitado a côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do energico.
Inundára-se de povo a Calle de Alcalá. Os char-á-bancs eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o fumo, o chocolate, os touros emfim.{129}
Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!
Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação; scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas de charutos.
—A elle, meu valente, a elle...
E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada, applaude o sangue; mais uma investida e o misero cavallo lazarento succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este pandemonio infernal!
Agora Lagartijo que se approxime; elle traz uma pequena espada na mão direita; para elle está reservada a mais garbosa moña, que nunca mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: Lagartijo investe; mais uma volta, e o touro cahirá.
As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os lenços{130} de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi irrequieto, nervoso, indomavel: Lagartijo venceu, Lagartijo é o heroe da festa; triumpho a Lagartijo...
Otro toro! otro toro!...