Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a felicidade da agricultura e o alimento da miseria.

Touro, cavallo, farpas, lanças,—tudo á uma é arrastado em padiolas para fóra do amphitheatro.

Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.

É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna e doce{131} folgança, onde os risos e as lagrimas, as alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.

E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas provincias e os seus concelhos.

Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.

Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas populares poderam ainda prostral-o.

Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de ser guerreira e sanguinosa.

Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é—lutadora, torera e ruidosa.

A los toros! a los toros!{132}
{133}