Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.

«Cavalheiro—Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».

Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.

Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros. Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois de{139} varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel. Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição lhe impunha.

E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se saciou.

Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do boulevard!

Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.

«Minha menina—Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais. O seu...»{140}

E assim é, de facto, o boulevard:—a vida, o amor, a formosura—e tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.

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