Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o Retiro.
Dizem que o sol é o pae da vida—approveitemos o sol. Bras-dessus, bras-dessous, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!—sabe a marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto. Conhecia a Dolores, a formosissima cocotte da rua de Alcalá? Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil señorita. Que ferro, minha amiga, que ferro!{141}
Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no Prado. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem—uma bonita carruagem moderna e commoda—e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.
Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do boulevard, um espirito risonho, attrahente, leviano,—nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e conduzia seu pae—um triste cego!—pelo braço. Não amava porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe reconhecia os{142} perigos. Afóra isto, como se encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos assalariados da terra.
No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia—uma pobrissima e desgraçada familia—carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.
Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...
Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que alegria, meu Deus!—exclamava ella. Finalmente... finalmente...
E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos, incomprehensiveis...{143}
D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e perigosissimas rainhas do Prado.
Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia—bom rapaz, é verdade, mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o rendez-vous, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,—ó pudor!—apenas a comprimentou á entrada e á saída.