—Não, minha senhora, sou portuguez—respondi.

—Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres mezes. É uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel, mas a sociedade é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e vive do que os outros lhe querem dar...

—E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?

—Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci na America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde fui educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da Suissa vim para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico filho que tenho.

—E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?

—Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto muito dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas{157} ardentes e mais que tudo fanaticos à outrance.

—E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?

—Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem uma historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a peito defendia a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo feminino, e fez-se rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao mesmo tempo que seu marido, formou-se em direito, e já escreveu sobre direito penal. Hoje é uma distinctissima poetisa, e ainda uma deslumbrante mulher.

—Admiravel!

—Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que usava do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos do duque de Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.