Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais averiguações, o carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios, mandando-o para as masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O processo foi instaurado; duas cartas existiam de grave compromisso para o encarcerado. No momento, porém, em que o escrivão estava distrahido Romero{178} Ortiz, pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este arrojo salvou-o do patibulo.

Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes, publicou o Diccionario da politica, de collaboração com dois amigos.

Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da liberdade. Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o matrimonio civil e aboliu a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi nomeado governador civil; e quando em Hespanha se constituiu a União liberal, o sr. Rios Rosas dispensou-lhe a maior consideração e os maiores respeitos. Foi deputado pela primeira vez em 1854 pela Corunha. Tomou parte activa na revolução de 1868, e no governo provisional foi elle um dos ministros.

O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos aos portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e a sua mais{179} afamada publicação intitula-se: «La historia de la literatura portuguesa em el siglo XIX.»

É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais conscienciosos que conhecemos. Mas, no momento actual em que nos considerou, dá mostra de recebimento de más informações. Guinda a certa altura quem não merecia ir tão alto, e esquece nomes, em todas as pretendidas escholas, dos que, á parte rivalidades de que nós nos não fazemos echo, são de primeira plana em todos os campos.

Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do ultramar.

Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi que exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus estudos.

No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da Bandeira, a caixa de{180} rapé do visconde de Castilho, e uma lembrança de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.

Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras reliquias dignas da maior attenção e de estudo.{181}

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