Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho ha spleen.

São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos acudiram ao espirito, em relação ao caso presente.

Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro para as tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi sempre, um distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão intellectual.

O fumo está para o cerebro na mesma{182} proporção em que o café está para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios ao homem; com a simples differença de que o café nos excita, por vezes, demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em nós um salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.

Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,—ai de nós! que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é—ao spleen.

A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa ver uma formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as nossas impressões e o nosso juizo de momento?

E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto é certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular nostalgia por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando regressamos á patria, nos assalta uma terrivel hypocondria{183} por tudo o que é estranho e nos assombra.

D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar, tenha paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a uma das suas intimas confidentes para a acompanhar.

E verá que a não engano!

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