Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles—mercê de Deus.

Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as toilettes, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e todos—ó céus! sem mesmo o presentirem—caminham para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.

D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.

Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas de{17} bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella sabem calçar uma bota á Benoiton; Aline, a sua modista, tem algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, acreditem:—unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o tic nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso—essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o to be da humana existencia—o caracter.

Emile Péreire, no tempo em que escrevia no Nacional, sob as ordens de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava{18} de imaginar o futuro de riqueza que o esperava.

Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:

—Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e não tenho dentes.

Pois assim está a nossa capital—quando tinha caracter e dinheiro faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.

Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista—abramos a janella, e olhemos serenamente o que se passa.

Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer{19} pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.