Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do extraordinario.

Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos testemunhos de affecto.

Eram pae, mãe e duas filhas.

No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de rewolver, desfechado á queima roupa por seu{20} marido, o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.

Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.

Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.

E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.

Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem—a falta de agua. O caracter hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, aspero{21} ás vezes, e irreflectido quasi sempre.

A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto destituidas de gosto.

Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do ménage como uma necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.