Justamente, quando o meu espirito allucinado procurava o calix da ventura para docemente o libar, veiu a desdita sentar-se ao lado, e involver-me no luto de medonha desesperança.

Meu Deus! meu Deus! Quanto a vida é cruel, sem uma esperança fagueira que nos alimente os sonhos radiosos do porvir! Quão duro é de tragar o absintho d'esta existencia ephemera!

Porque será que o espirito do homem é tão possante librando-se nos vôos d'uma phantasia ardente; e cahe depois prostrado pela vertigem das paixões no mais temeroso de todos os precipicios?

Insondaveis são os arcanos do Creador!

A esperança vivifica; o amor martyrisa!

Podesse ao menos o holocausto do meu doloroso soffrer resgatar os dias sanctificados de Leonor, e eu satisfeito deporia a minha cruz, orvalhada pelas lagrimas de eterna saudade.

A ventura é um anceio febril em espiritos privilegiados. Mas a ventura é uma vaidade, uma chimera, entrecortada, apenas, pelas alternativas radiantes de melhores horisontes!

Feliz o homem que tem fé; porque a fé, para almas bem formadas, é a agua redemptora do seu baptismo.

Porém o homem, que sente o gêlo da descrença no seu coração; o homem, que não pode evitar a peçonha corrosiva do cynismo e da perversidade; esse homem é um desgraçado, um miseravel, como muitos, que a sociedade escolhe para instrumento da sua implacavel vingança, e opprobrio da humanidade!!

E quem me permitte ajuizar da minha virtude?...