--Ora a mana sempre é muito invejosa!... que se importa com a vida do sr. Arthur? que tem com elle? nunca o ouviu fallar a seu respeito, nem bem, nem mal, não é assim?... pois então é melhor calar-se, e nunca mais tornar a fallar em tal coisa.
--Sim, sim, tudo isso é muito bonito! eu já sei o que a mana quer: imagina talvez que o sr. Arthur está a distillar de amores pela sua pessoa, e illude-se perfeitamente. Nem elle tinha mais que fazer. Olhe, sabe que mais, é melhor tirar d'ahi o sentido. Ainda d'esta vez não péga a labia, minha senhora...
--Olhe bem a mana, veja lá o que diz; depois não se arrependa, porque pode vir tarde e a más horas. Não estou disposta a aturar as suas creancices por mais tempo. Parece que ainda cheira a coeiros! Que tal está o fedelho! já viram coisa igual?...
Neste ponto, Arthur, vendo que a contenda ia a tomar proporções um pouco serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos resultados, que d'ahi lhe podessem provir. Para isso tocou a campainha, e logo após veiu um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a proxima saleta.
Entrámos n'uma sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta. Sentámo-nos n'umas cadeiras de braços, ao acaso, e lançámos mão do primeiro objecto que se nos deparou opportunamente sobre a mesa: era um album, quasi todo manuscripto.
Abrimol-o distraídamente,--passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquella multidão de paginas, repletas de centenares de palavas semsabores e sem sentido--quando vimos, no topo da pagina, a seguinte epigraphe:
ILLUSÕES
(Fragmento d'uma poesia inedita)
Á ex.ma sr.ª D. Mathilde
Isto excitou a curiosidade de Arthur, que continuou a lêr em voz alta: