--Até de jantar, meu caro: são quasi duas horas da tarde.
--Pois bem, n'esse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almoçarás comigo, como espero.
--Eu?! almoçar a estas horas?! Estás perfeitamente enganado a meu respeito. Eram 7 horas da manhã, já estava fóra de lençoes; ás 8 tinha o almoço digerido; e ás 9 estava na rua a tractar dos meus negocios.
C'est trop fort!... Far-me-has companhia, ao menos, estimulando-me o appetite com dois dedos de succulento cavaco; depois iremos juntos a casa do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa protecção.
--Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir já confortando as paredes estomacaes, para o que dér e vier.
--Á cautela, tambem t'o aconselho; porque, finalmente sempre é obra que fica feita.
Almoçámos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo Arthur. Dir-se-ia um ente incomprehensivel, na verdade: ora alegre, ora triste, ora melancolico e sereno, ora folgasão e jovial; emfim, são coisas d'este mundo!
Depois de termos entrouxado duas boas travessas de appetitosas costellelas de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de Xerez,--saímos ambos, em direcção á rua de Sancta Catharina, onde morava o nosso amigo conselheiro F.
Apenas haviamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado pelo conselheiro e sua familia, quando nos soou distinctamente a voz de Mathilde, altercando furiosa com sua irmã Maria. Hesitámos um instante no nosso proposito, e por alguns momentos ficámos perplexos, sem saber o que fazer. Por fim parámos juntos á porta da entrada, a cuja fechadura collámos o ouvido cautelosamente, para assim, invisiveis, melhor podermos assistir áquelle espectaculo de ciumenta fraternidade.
Dizia Malhilde, com as faces inflammadas em colera e subito desespero, accentuando bem as suas palavras, vibradas do intimo do coração: