--Sim, senhor, muito bem, menino Arthur! isto é que se chama viver, o mais é historia! Olha que lá por fóra já é dia ha muito tempo.

--Ora deixa-me, nem me falles n'isso. Estou perdido, estou morto! Amo uma mulher apaixonadamente.

Ai! Mathilde! Mathilde! o teu olhar foi o demonio, que se introduziu na minha alma. Preciso amar-te. D'ora ávante só quero viver para ti, adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importarão, então, os prazeres d'este mundo, quando nós, afastados da sua corrupção e miseria, vivermos um só para o outro e nos alimentarmos na innocencia e suave conforto dos nossos corações privilegiados?!...

Ai! Mathilde! meu amor! custe o que custar, tu has de pertencer-me um dia. Embora tenha de arrancar-te aos braços de teu pae, tu serás minha e só minha, doce perola do meu coração!

--Bravo! tudo vai a melhor. Á ultima hora appareces-me metamorphoseado n'um elegante Romeu. Realmente, és um homem singular, um typo sui generis!...

--Sou um homem singular, dizes tu. Não preciso, nem quero comprehender-te. Porque me não vês, como vós outros, verme impotente, rastejando impunemente na podridão das proprias chagas, chamas-me um typo sui generis. Embora! Prouvera a Deus todos assim fossem!...

--Lá por isso não vale zangar, meu amigo. Já vejo que não estás hoje de muito bom humor. Este tempo chuvoso tambem não deixa de ter sua influencia sobre o systema nervoso. Mas, emfim, fallemos n'outra coisa. Quando chegaste de Fafe?

--De Fafe cheguei ha tres dias, e de sobejo têm elles sido para me persuadir a que não devo voltar para lá.

--Não deves voltar para lá?!... Essa é melhor. Então por que?

--Porque já agora aborreço aquella vida solitaria da minha aldeia. Tenciono comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha lá, isto devem ser horas de almoço: que me dizes?