--Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, de certo. Mas conta-me lá: que transformação foi essa tão rapida? Tu, o homem piegas e choramingas de outr'ora, o Heraclito provinciano, a quem nada podia distrair, a não ser uma ou outra pagina do milagroso Werther, appareces-me agora transformado em Democrito feliz e folgasão, catechisando estes corações rebeldes ao teu dominio e absoluto imperio?!...
--Isso é uma longa historia, meu amigo, que para aqui não vem a proposito. A esse respeito tenho muito que te contar. Apparece ámanhã no Hotel Central, quarto n.º 9, e lá fallaremos.
--Está dicto: ámanhã lá me tens, sem falta. Apertámo-nos depois as mãos reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Arthur voltou ao salão; eu retirei-me socegadamente ao meu quartel.
CAPITULO II
Amor, és immortal! sorris nas campas!
Goethe.
No dia immediato, á hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do Laranjal, conforme haviamos convencionado na vespera.
Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no Hotel Central. Fui assim percorrendo a longa numeração dos quartos, até que se me deparou o mencionado n.º 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a minima resposta. Á terceira pancada, já conseguira mais alguma coisa, por isso que me soára distinctamente o ranger descompassado d'um leito, e o bocejar monótono d'algum sybarita, que se espreguiçava indolente, qual moderno Sardanapalo. Quasi me julgara illudido no meu humilde proposito, quando ouvi a voz de Arthur, clamando bem alto:
--Olé! quem está ahi? Entre quem é...
Abri a porta, e entrei. Arthur mal havia despertado ainda do contristante lethargo que d'aquelle modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.