Pois a isto chama-se--saber viver e nada mais,--dirão muitos, e digo eu tambem. Lá diz o proverbio:--Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre.

Passemos, porém, uma esponja por sobre estas miserias e humanas ninharias, e voltemos ao salão.

Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.

Dizia o primeiro, litterato de grande nomeada na invicta cidade:

--Quem será aquelle joven Lovelace, que traz captivos tantos olhares modestos e apaixonados?...

--Pois, em verdade, ainda não o conheces, meu caro?--retorquia um adestrado Marialva, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria.--Aquelle sugeito é um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me dizem, e que vem agora residir para o Porto. É o que em boa sociedade pode chamar-se un homme distingué, un homme à bonnes fortunes.

--Hum!... lá me parecia!...--prorompeu o primeiro. Isso assim é outro cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro não descura da sua missão. Olha... que modos aquelles... como ella se quebra toda para lhe agradar... ah! pois não, coitadinha!... Nem a formosa nympha da mythologia, surgindo do seio do Oceano, seria mais bella e tentadora!...

--E bem haja. ella, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta sem dinheiro é o mesmo que um cavallo bonito e manhoso: todos gostam de lhe admirar a estampa, mas ninguem o quer para si.

Emquanto isto assim se passava, Arthur, de longe, pareceu reconhecer-me, e, levantando-se de golpe do logar onde se sentara, ao lado de Mathilde, veiu abraçar-me sem demora.

--Como tu estás gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por aqui, dizia elle, apertando-me fraternalmente em seus braços varonis.