Não pude ouvil-o por mais tempo. O echo de suas ultimas palavras foi perder-se a distancia nas azas da branda viração d'uma esplendida madrugada de outono.
Retirei-me para casa bastante apprehensivo. De todo me fôra impossivel atinar com a origem de similhante mysterio. Appellei, pois, para o tempo, como melhor mestre e mais efficaz para me elucidar a esse respeito.
Quando me tornei a encontrar com Arthur, d'ahi a algumas horas, já o reconheci mais sereno e agradavel. Affigurou-se-me ver dissipadas as sombras, que pouco antes lhe offuscavam o espirito. Ainda assim, evitei sempre o fallar-lhe sobre coisas, que de algum modo podessem offender o seu melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os seus pezares e profundas amarguras, mas vi quasi baldados os meus esforços.
No entretanto, o inverno ameaçava ser rigoroso. O mez de novembro principiara frio e insupportavel.
Tudo se transtornara ali, com a chegada da estação invernosa. Aquelles prados e veigas, até então tapetados de verde e flacida alfombra, começavam a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitaveis. O céu iriado da primavera havia desapparecido, deixando em seu logar um montão de nuvens escuras e temerosas.
Neste comenos, negocios de familia me chamavam a casa, impedindo a continuação da minha residencia n'aquelle encantado paraizo de amor e felicidade. Despedi-me, pois, affectuosamente do meu amigo Arthur, e regressei ao Porto.
Arthur promettera escrever-me d'ahi em diante sem interrupção. Passaram-se, comtudo, oito mezes sem que eu recebesse uma unica carta sua. Quasi o julgara doente, se, porventura, não fôra um amigo d'aquelles sitios, que me disse tel-o encontrado, poucos dias antes, de perfeita saude e invejavel robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quiz saber.
Aconteceu, porém, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do conselheiro F., por occasião do anniversario natalicio de sua filha Mathilde. Mal teria entrado no salão, quando, cheio de espanto e receioso prazer divisei o meu amigo Arthur de Campos, por entre a multidão de cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a proxima quadrilha.
Fiquei estupefacto!
Ora vão lá conhecer o mundo,--dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquelle homem que, ainda ha pouco, amaldiçoava a sociedade, no meio d'um horrivel spleen, que lhe atrophiava a dolorosa existencia; aquelle homem, para quem a mulher não passava d'um espectro hediondo e feroz,--já então não hesitava em se degradar d'aquelle modo, vivendo na sociedade, e procurando até o objecto da sua antiga indignação e odioso desprezo?!...