Similhante a um reptil, lá me fui arrastando, como pude, por entre o matto e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.
Foi então, que sua tímida voz, de envolta, com o perfume do orvalho matutino, me veiu estancar no peito um mysterioso receio. Suas palavras foram tristes, como a solidão da sua alma, pavorosas como os milhares de phantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monólogo:
--«A sociedade! sempre a sociedade! Maldicta sejas tu, mil vezes maldicta!... E o homem ha de respeitar necessariamente os teus decretos vis, e lisongear a tua hypocrisia infame!
«Triste abjecção!...
«Não sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada passo, me enluctam o espirito com as trevas deste mundo, sinto-me enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e não posso de maneira alguma acreditar na idéa d'um Deus infinitamente justo e bom!...
«Muita lagrima, muita miseria e muita vingança: eis devéras a realidade das coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!
«Nasce a criança, de envolta com o cilicio do soffrimento, para expirar depois no meio de agudas dôres e medonho agonisar!
«Um dia, quando já homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podridão da sua alma corrompida, o veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrupção, a vaidade!...
«E ainda ha quem sonhe no amor d'uma mulher?!...
«Pobre desgraçado, quem quer que tu sejas compadeço-me da tua innocencia. Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e não creias jámais nas palavras hypocritas d'uma mulher fementida! Afasta-te, em quanto é tempo, d'essas viboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruina, e a degradação da tua dignidade!...»