Estava eu em Fafe, no mez de agosto de 1860. Ali, fugindo ás ardencias do estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns mezes, á sombra d'aquellas viçosas amoreiras, completamente descuidado do bulicio d'este mundo, para a sós comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e beatifico scismar.

Foi tambem n'uma d'essas occasiões, creio eu, que me foi licito sondar uma das almas mais formosas e um dos genios mais modestos que tenho encontrado em dias de minha vida. Arthur de Campos era realmente um moço affavel e de uma fina educação; bom até ali. Havia um não sei quê de mysterioso e sympathico n'aquelle seu vulto insinuante e bello, que me attraía irresistivelmente para elle.

Para logo, procurei travar relações com o joven provinciano, e de tal modo o consegui, que, dentro de pouco tempo, já vivia nas suas proprias alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre nós a amizade era mais que fraternal. Quasi todos os dias nos juntavamos de manhã, para só nos separarmos ao recolher para casa.

Oh!... com que saudade me não lembra ainda aquelle tempo!... como os dias se deslisavam então brandos e suaves! como era puro o azul do nosso horisonte, e feliz a nossa existencia, juncada pelas rosas do amor, e matizada de flores, que nos enfeitiçavam a mente enlouquecida pelas larvas da phantasia!...

Ás vezes passavamos horas inteiras, um ao pé do outro, sem articularmos uma unica palavra; e, comtudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se mutuamente n'aquelles meigos e puros anceios de paz e felicidade.

Um dia, lembra-me ainda como se hoje fôra, eram talvez duas horas da madrugada. A lua, aureolada de mystica luz, campeava no seu eterno throno de magia e formosura. Reinava um silencio sepulchral. Apenas se presentia ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas arvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa da madrugada.

Senão quando veiu ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Arthur, que me chamava de fóra da porta. Corri a elle, curioso por saber o que se teria passado. Nada me disse. Entrou pensativo. para dentro de casa, e sentou-se melancolico e triste.

--Sei quem és, meu amigo; falla francamente, que tens tu, que te aconteceu?...

Elle, comtudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por mim, julguei prudente não insistir em tão pertinaz proposito, e aguardei melhor ensejo para esse fim, certo de que elle se não recusaria a revelar-me o seu segredo.

Após alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma unica palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal idéa de o acreditar demente. Para me certificar, porém, da verdade do facto, resolvi seguil-o a todo o transe, commettendo a discrição de me occultar, o mais cautelosamente possivel, atrás da espessura do arvoredo por onde elle tinha de passar irremediavelmente.