Porém, vai longa a digressão. Voltemos ao fio da nossa historia.

Arthur viera, pois, assentar a sua residencia no Porto, definitivamente. Ali comprou uma linda habitação, ao cimo da rua da Alegria, onde se conservou durante um anno, approximadamente, n'um remanso de paz e socego de espirito, que ameaçava ser eterno.

Não aconteceu, porém, assim. As nuvens iam-se-lhe amontoando gradualmente por sobre o anil do seu horisonte. A procella estava imminente; era terrivel o abysmo!

Acompanhemos o drama.

Arthur, apenas estabelecida a sua morada, e dispostas convenientemente as demais coisas, concernentes a uma boa administração, começou a embriagar-se de tal modo n'aquelles effluvios de amor, que brotavam espontaneos do seio de sua adorada esposa, que se julgou prestes a succumbir de felicidade e bem-estar.

A ventura em demasia conduz-nos a maior parte das vezes a uma dolorosa prostração e fleugmatica indifferença por tudo o que não fôr o objecto das nossas vistas apaixonadas e infantis.

Foi exactamente o que succedeu ao afortunado(?) mancebo. Mathilde tornara-o flexivel a ponto de o converter n'um instrumento pueril de todos os seus caprichos e insaciaveis desejos.

Os bailes multiplicavam-se; os jantares não tinham limites. Emfim, por aquelle andar, tudo tendia, sem remedio, a uma perdição infernal e miseravel corrupção. E a par d'isto tudo, como succede a maior parte das vezes, a reputação de Mathilde corria já empeçonhada e perdida...

O joven provinciano parecera não ter primado demasiadamente na escolha dos seus amigos. Por entre um ou outro coração sincero e bom, d'aquelles que frequentavam a sua casa, surgiram tambem muitas almas corrompidas e devassas. Entre estas, notára-se particularmente um flaneur de bom tom, a quem Arthur dedicára sempre, desde o principio, uma particular predilecção. Chamava-se elle Roberto Guimarães, se bem me recordo.

Roberto Guimarães era um d'estes elegantes da boa sociedade, a quem de resto pareciam sobejar dotes de espirito e faculdades inventivas para se fazer amar por qualquer mulher, egualmente formosa e bella. Trajava pelo ultimo figurino de Paris: o pescoço, vexado em enorme collarinho, que devia medir um palmo, aproximadamente; as pernas enfronhadas em apertada calça, que ameaçava desconjuntar-se a cada movimento; o pé, encaixado n'uma bota de lustroso verniz, obrigando-o a andar em passo de dança por causa dos callos que o molestavam; a luzente cabeça, sepultada em fino chapéu, cuja altura não excedia tres pollegadas. Era sua inseparavel uma badine, em que pegava com o primor do fino janota; frequentava o café Marrare, onde ia discutir a politica do dia.