Arda muito embora o universo! De que vale essa triste ninharia, se as chammas mesmo de leve nos não tocarem?!...
Neros do egoismo! preparae a vossa argilla immunda! A hora soará uma vez, e os vossos cadaveres, por seu turno, agitar-se-hão ensanguentados ao longo das vossas miserias e villanias!...
No entretanto, em quanto as coisas assim se passavam, Arthur regressara finalmente á patria, após uma longa viagem, que havia emprehendido á Inglaterra, com o intuito provavel de recuperar no estrangeiro a ventura, que lhe fôra impossivel encontrar no meio d'aquelles que mais amava e queria. Quem o visse, depois da sua chegada, passear as ruas do Porto n'uma perfeita serenidade de espirito e jovialidade quasi espontanea, que tão peculiares se tornavam ao seu caracter indifferente e generoso--reputal-o-hia, á primeira vista, um homem feliz, sem receio de errar.
As grandes commoções variam de individuo, segundo a diversidade de circumstancias que as podem originar. A desgraça de Mathilde convertêra-se n'um manancial de felicidade para Arthur. O homem, aviltado por um amor insensato, reconheceu, alfim, a sua dignidade, e ergueu a cabeça, cheia de luz e esplendor. O holocausto de sua mulher resgatára-o para a vida e para o mundo.
Antes assim!
Após esta grande evolução do espirito humano, a transformação operára-se rapida e completa. Apagaram-se odios ruins; deslembraram-se velhos rancores.
O esquecimento da victima e o cynismo tornavam dois homens ditosos sobre a terra, em quanto o céo acolhia, talvez, no seu seio uma peccadora arrependida, e regenerada pelo amor e pela virtude!
E de facto, Mathilde, quando se viu assim ludibriada, e afastada da sociedade, chorou muitas lagrimas de arrependimento sincero, derramou nas trevas muita perola occulta, tragou até ás fezes o absintho d'aquella taça denegrida e empestada pela sociedade, a que alguns muito erradamente chamavam vida. Vida! para aquelles que a não conheceram outr'ora opulenta e a trasbordar de pura seiva vital!... Vida, sim, mil vezes terrivel e amargurada!...
Antes o inferno, a solidão, o abandono, a inercia, do que o sacrificio de tão ignobil vegetação!...
Agora, é tempo de terminarmos a nossa historia. Fica ao arbitrio de cada um, o ajuizar da bondade ou maldade da nossa heroina. Nem isso nos causará assombro. Para nós, Mathilde symbolisa uma perfeita imagem da mulher actual; nem mais nem menos.